terça-feira, 21 de junho de 2011

O irmão mais velho

O irmão mais velho


 

    Tenho pensado muito nos últimos dias sobre a situação de viver sendo a irmã mais velha. Eu também velha.

    Minha mãe e meu pai, assim como minha sogra e meu sogro, são e foram os irmãos mais novos, chegaram ao fim da jornada dura e árdua da existência inicial de uma família. O Ednei meu filho pode-se dizer ser mais novo apesar de nascer no mesmo dia e mês que o irmão Edgar, apenas com um ano de atraso. Viveram as dificuldades e alegrias da família ao mesmo tempo. Eu e o Zé somos os irmãos mais velhos. Às vezes sinto remorso do meu recluso, da busca de solidão, mas não é egoísmo e sim uma necessidade de viver um pouco a vida, de fazer aquilo que realmente gosto e nunca tive oportunidade pelas obrigações de irmã mais velha.

    Eu vivi o tempo pobre de meus pais, com as dificuldades financeiras e o desejo que tinham em melhorar, além dos critérios políticos de uma época em que os emigrantes até eram bem vindos, mas com poucos direitos.

    Uma das coisas que hoje mais gosto de comer é feijão preto com arroz, pois quando era criança só comia essa regalia na casa dos vizinhos, porque minha mãe além de não conhecer o referido cardápio, nos servia carne de porco com batatas doce, pão com leite, açordas e outras iguarias de Portugal. Bacalhau naquele tempo era comida de pobre, vendido nas portas de mercearias (Hoje se tornou caro e para poucos privilegiados). Arroz com feijão também era comida de pobre, apenas mais gostosa. Os irmãos mais moços, comeram queijos, pizzas, arroz com feijão e carne, saladas, geléias e podiam passar margarina à vontade no pão.

    O uso do penico era normal nas casas pobres, esse era nosso banheiro à noite. Durante o dia havia a retrete nos fundos do quintal, (um buraco na terra, com um banco de madeira e um buraco no meio, onde fazíamos as necessidades, revestido com uma casinha e uma porta com frestas, dividindo o espaço com um galinheiro e um chiqueiro. Nossos banhos eram feitos em uma bacia grande, primeiro lavávamos a cabeça e depois o resto do corpo. Chuveiros eram luxo de rico e banhos somente nos finais de semana, costume europeu, pelo menos entre os meus ancestrais, sabão no lugar do sabonete. Eu não andava suja, tampouco rota, minha mãe boa costureira sempre fazia lindos vestidos, mas apenas para ir à missa ou passear algumas vezes pela cidade. Os irmãos mais moços, tiveram torneiras e banheiros, toalhas e papel higiênico.

    A água era retirada do poço com um balde amarrado em uma corda puxado por uma roldana. Esse foi o meu trabalho de infância mais árduo e cansativo, pois tinha que manter o balde da pia sempre cheio e quando minha mãe lavava a roupa eu tinha que manter sempre o tanque com água, para esfregar, e enxaguar. Passava horas do dia fazendo isso, quando não era eu mesma quem lavava as fraldas de meus irmãos mais moços.

    Eu brincava de pular corda e me divertia também, tinha bonecas de louça, mas gostava mesmo era das de borracha, caras e novidades, pois as louçadas hoje valiosas para quem as conservou, quebravam fácil demais.

    Como Irmã mais velha eu tinha que cuidar dos menores para minha mãe poder bordar, quando eu não estava bordando bainhas ou fazendo cordinhas de crochê para pregar santinhos e escapulários. Na adolescência claro que eu gostaria de ter ido mais ao cinema, e ao circo, porém durante muitos domingos tive que fazer companhia a minha mãe e cuidar de meus irmãos. Levei ao colégio, dormi com eles em meu quarto e fui responsável todas as tardes, depois de limpar a cozinha, e enquanto fazia meus deveres de escola. Não fui infeliz, mas tive que aprender fácil as responsabilidades de Irmã mais velha.

    Eu vivi os horrores da loucura, o medo do escuro e medo da polícia por ser irmã mais velha, mas essa eu conto depois.