sexta-feira, 15 de abril de 2011

na aula de francês

segunda
É cedo ainda. Ao meu lado o Zé dorme como uma criança e no silêncio da manhã posso ouvir a arrebentação da maré, talvez seja o frio exagerado deste inverno, mas sinto preguiça de acordar agasalhada em meu cobertor. O jeito será trocar logo de roupa, me aquecer com um casaco bem quente, tomar quatro chícaras de café bem quente e amargo como gosto e começar bem o meu dia.
Não há nele nada de interessante, além da rotina, de uma existência de cinqüenta e três anos, arrumar minha casa, fazer almoço, arroz, feijão, carne e salada.
O Zé está fazendo uma calçada, arrumando tudo para receber nossos netos no natal. Essa espera, nossa esperança em poder abraçar, beijar, afagar, nos dá vida, alegria . Por enquanto nos contentamos em olhar fotografias, conversar ao telefone, escrever cartas e nos orgulhar-mos em ter um neto com nome de anjo... Gabriel, apenas um sonho.
Passo o dia tranqüila, converso com o Zé, bordo, desenho, leio, ando de bicicleta, vou à praia olhar o mar, ouço música, visto o arco-íris , trabalho.
Tenho tudo o quer preciso, minha casa é simples e arrumada, mas o quintal principalmente é maravilhoso. À quatro quadras tenho uma baía inteira, vejo o pôr do sol mais lindo e alaranjado da janela de minha cozinha enquanto preparo o jantar e aquela muralha de selva , da Serra do Mar, a lua de madrugada ilumina toda a minha casa, como o sol aquece durante o dia. Ouço a tempestade e as ondas quebrando a ressaca.
O Zé acendeu uma vela no altar, uma pequena Capela que tenho entre o banheiro e o quarto do Ednei. Quem estiver ali não será incomodado nunca, pois sei que está rezando.
Outro dia vi uma serpente linda, dançando envolta na mangueira do jardim. Senti medo, pânico, porque eu estava sozinha, o Zé tinha viajado e meus vizinhos me ajudaram, jogando a cobra em um terreno baldio. Soube depois ser uma Jararaca. Não sei como veio parar em minha casa, mas por esse motivo eu tenho a Tuca, uma cadela vira-lata, presente de Deus aos humanos, o sexto sentido que precisamos.
Enquanto janto, assisto novelas porque gosto de histórias em folhetim, admiro a imaginação de seus autores, além de ficar por dentro da moda em roupas, móveis, livros, teatros, enfim, tudo o que há no mundo de consumo e Guaratuba não tem, porque realmente não precisa.
Mais tarde, quando o cansaço chega e me deito, ouço a arrebentação da maré, o silêncio da noite, quebrado pelos latidos da Tuca. Deve ser Mefístoles, o gato de Alberto, amarelo como o sol, que voltou do exílio e fica debochado sobre o muro.
A maré, o silêncio arrebentando as ondas, o latido da Tuca, longe, Mefístoles...longe...
Guaratuba é o Éden, o melhor lugar do mundo para minha alma vive...adormecer.

Texto feito para aula de francês em 06 de agosto de 2007- traduzido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário