um tempo finito/infinito
ano de 1958/e/ano/
morávamos na vila Leão. Todos os funcionários da fabrica, residiam nessa vila. Uma casa ao lado da outra, terrenos pequenos. A nossa era dividida ao meio. À frente pelo portão já havia divisões também no terreno. Pelos fundos se entrava pela cozinha, passava um corredor comprido e a direita meu quarto e de minha irmã Ângela, ao lado a sala e no final o quarto de minha mãe. Podia-se entrar também pela sala, mas somente as freguesas de dela, estava sempre arrumada, e não podíamos brincar lá. Meu irmão bebe ainda dormia no quarto com meus pais. O Outro lado da casa era igual ao nosso e morava outra família. Os banheiros eram retretes, feitas de madeira. (Como aqueles da lista de Schinlder onde as crianças pularam para fugir dos nazistas. No pequeno quintal, tinha um galinheiro e chiqueiro.
Dizem que certa vez matei alguns pintinhos, porque eu era má. Devo ter visto o processo da matança por isso aprendi. Quando criança não questionei. Era assim, assim era.
O empregado que tivesse muitos filhos morava em uma casa maior. Tia Marta e dona Inês eram vizinhas por esse motivo. Família numerosa.
Fiquei na casa da tia Marta no período em que minha mãe esteve internada no manicômio. Ela tinha nove filhos. Eu um pouco mais velha que Laurinda e Ângela, as filhas mais novas. Os outros já eram crescidos e alguns casados. Minha avó visitava minha tia sempre. Minha irmã Ângela ficou na casa de sua madrinha em outra rua e meu irmão ficou com tia Ermínia.
Naquela época as casas eram separadas por cercas de madeira, e os portões fáceis para qualquer criança abrir. Essa era eu. Não parava em casa. Lembro quando pequeninha, ia a todos os lugares, vivia na rua, pela casa dos outros. Não parava.
Assim foi encontrado uma maneira de prender-me dentro de casa. Ou tentado.
Dona Inês... Uma senhora, gorda, negra, prole imensa, era meu "Bicho Papão".
Para manter-me presa minha mãe passou a assustar-me que dona Inês iria me pegar se eu saísse de casa. Elas precisavam lavar roupa e na comunidade havia um tanque com torneira para todos os funcionários e ali as famílias se revesavam. Eu brincava com outras crianças e ouvia aquela voz. "Olha dona Inês". Saía correndo assustada. Crianças não questionam. Dona Inês iria me pegar e pronto. Eu senti medo quando vi Laurinda perto de dona Inês certa vez, gritava para que entrasse, mas ela me tranquilizou depois. Não se preocupe, ninguém tem medo porque ela só quer pegar você. Assustar uma criança, que jamais questionaria, porque uma senhora cheia de filhos, pobre, trabalhadora iria me pegar? Nunca pensei isso quando criança.
Certo dia vi ambulância na casa de dona Inês. O tanque havia caído sobre a perna da coitada provocando fraturas. Fiquei muito contente, meu intimo cantava "Bem feito, bem feito, bem feito".
Mesmo a sentir medo dela, todos os dias ia à nossa casa, ver se minha mãe havia voltado. Estava sempre fechada.
Um dia vi a casa aberta e um cheiro gostoso. Senti meu coração acelerar, pensei que a mãe havia voltado. Mas era meu pai a cozinhar e expulso-me de lá, mandou que eu voltasse à casa de minha tia, porque minha mãe ainda estava no hospital e ele não me queria.
Todos os domingos eu visitava minha mãe no hospital psiquiátrico, encontrava meus irmãos e primos e brincávamos no jardim. Havia uma capela de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais nesse jardim. Hoje é apenas um hospital do Sistema Único de Saúde
Anos depois quando nos mudamos para o Novo Mundo, (o bairro onde passei a maior parte de minha vida), vi dona Inês no portão. Assustada escondi-me. Ela tinha me achado. Ninguém notou minha falta naquela tarde, onde a senhora apenas viera nos visitar e desejar felicidades, fazer algumas fofocas, coisas de vizinhas.
