quarta-feira, 31 de agosto de 2016

vizinha





um tempo finito/infinito
ano de 1958/e/ano/ 


morávamos na vila Leão. Todos os funcionários da fabrica, residiam nessa vila. Uma casa ao lado da outra, terrenos pequenos. A nossa era dividida ao meio. À frente pelo portão já havia divisões também no terreno. Pelos fundos se entrava pela cozinha, passava um corredor comprido e a direita meu quarto e de minha irmã Ângela, ao lado a sala e no final o quarto de minha mãe. Podia-se entrar também pela sala, mas somente as freguesas de dela, estava sempre arrumada, e não podíamos brincar lá. Meu irmão bebe ainda dormia no quarto com meus pais. O Outro lado da casa era igual ao nosso e morava outra família. Os banheiros eram retretes, feitas de madeira. (Como aqueles da lista de Schinlder onde as crianças pularam para fugir dos nazistas. No pequeno quintal, tinha um galinheiro e chiqueiro. 
Dizem que certa vez matei alguns pintinhos, porque eu era má. Devo ter visto o processo da matança por isso aprendi. Quando criança não questionei. Era assim, assim era.
O empregado que tivesse muitos filhos morava em uma casa maior. Tia Marta e dona Inês eram vizinhas por esse motivo. Família numerosa.
Fiquei na casa da tia Marta no período em que minha mãe esteve internada no manicômio. Ela tinha nove filhos. Eu um pouco mais velha que Laurinda e Ângela, as filhas mais novas. Os outros já eram crescidos e alguns casados. Minha avó visitava minha tia sempre. Minha irmã Ângela ficou na casa de sua madrinha em outra rua e meu irmão ficou com tia Ermínia. 
Naquela época as casas eram separadas por cercas de madeira, e os portões fáceis para qualquer criança abrir. Essa era eu. Não parava em casa. Lembro quando pequeninha, ia a todos os lugares, vivia na rua, pela casa dos outros. Não parava. 
Assim foi encontrado uma maneira de prender-me dentro de casa. Ou tentado. 
Dona Inês... Uma senhora, gorda, negra, prole imensa, era meu "Bicho Papão".
Para manter-me presa minha mãe passou a assustar-me que dona Inês iria me pegar se eu saísse de casa. Elas precisavam lavar roupa e na comunidade havia um tanque com torneira para todos os funcionários e ali as famílias se revesavam. Eu brincava com outras crianças e ouvia aquela voz. "Olha dona Inês". Saía correndo assustada. Crianças não questionam. Dona Inês iria me pegar e pronto. Eu senti medo quando vi Laurinda perto de dona Inês certa vez, gritava para que entrasse, mas ela me tranquilizou depois. Não se preocupe, ninguém tem medo porque ela só quer pegar você. Assustar uma criança, que jamais questionaria, porque uma senhora cheia de filhos, pobre, trabalhadora iria me pegar? Nunca pensei isso quando criança.
Certo dia vi ambulância na casa de dona Inês. O tanque havia caído sobre a perna da coitada provocando fraturas. Fiquei muito contente, meu intimo cantava "Bem feito, bem feito, bem feito".
Mesmo a sentir medo dela, todos os dias ia à nossa casa, ver se minha mãe havia voltado. Estava sempre fechada. 
Um dia vi a casa aberta e um cheiro gostoso. Senti meu coração acelerar, pensei que a mãe havia voltado. Mas era meu pai a cozinhar e expulso-me de lá, mandou que eu voltasse à casa de minha tia, porque minha mãe ainda estava no hospital e ele não me queria.
Todos os domingos eu visitava minha mãe no hospital psiquiátrico, encontrava meus irmãos e primos e brincávamos no jardim. Havia uma capela de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais nesse jardim. Hoje é apenas um hospital do Sistema Único de Saúde 
Anos depois quando nos mudamos para o Novo Mundo, (o bairro onde passei a maior parte de minha vida), vi dona Inês no portão. Assustada escondi-me. Ela tinha me achado. Ninguém notou minha falta naquela tarde, onde a senhora apenas viera nos visitar e desejar felicidades, fazer algumas fofocas, coisas de vizinhas.





domingo, 28 de agosto de 2016

era real

Guaratuba, 28 de agosto de 2016
....
"As trevas esperavam o sol na sombra da noite!"

Diante dele que lia meu ser e não via o sentido.
Esperava que eu falasse, não consegui dizer
Ela pedia para ir presa e eu chorava. Queria ir para casa.
Agora eu peço para ir presa e ela ri no além. Vê o meu sofrer
Ele sem enxergar a vergonha em eu rosto
desistiu de mim.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

grandes Anjos

eu estava ali a pedir para ser presa.
quando criança minha mãe queria ir presa e eu chorava e implorava para ir embora. queria minha casa
agora eu pedia para ser presa e minha mãe chorava, que deixasse sua alma em paz

domingo, 14 de agosto de 2016

Dia dos pais

14 de agosto 2016
Aniversário da Alana
Eu e o Ze subimos à Curitiba.
Comemoramos na casa da Eli o dia dos pais e o aniversário de doze anos da Alana
Como o tempo passa meu Deus

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

cinco anos de vida

começo das lembranças. muito cedo


Curitiba, um dia qualquer no inverno...1958

... As trevas esperavam o sol na sombra da noite,
eu sentia sono, queria dormir mais
........
          Minha mãe acordou-me com um sussurro e pediu para aprontar-me rápido, enquanto tentava acordar minha irmã Ângela, que virou-se para outro lado e não quis levantar. Segurou minha mão e com meu irmão Zeca de um ano ao colo, enrolado em um cobertor saímos na noite, em silêncio como fugitivos.
          Pensei que iriamos para o ponto de ônibus como sempre, mas ela ficou escondida algumas quadras além de nossa casa. Não lembro onde nos escondemos, ninguém poderia nos ver.
... Vi o dia nascer ...
          Lembro de minha mãe correndo para diante do carro de um vizinho, quando este saia da garagem, abriu a porta e entramos furtivamente. O homem depois do susto, ficou muito brabo com ela e mandou que saísse, a chamava de louca e ela chorava muito, implorava que a levasse para longe dali. Fiquei com medo, queria voltar para casa, mas ela pedia àquele homem, "ajude-me, o senhor é o meu português, o senhor é o meu salvador".
           Contra a vontade ele concordou em levar-nos. Ela ficou a falar o tempo todo sem parar e o homem estava nervoso. O que lembro foi ele dizer. "A senhora fica aqui agora, vai ter que descer de meu carro. Preciso ir trabalhar".
          Andamos até um quartel, quando ela se jogou diante de uma guarita onde um soldado montava guarda e a gritar pedia "Me prenda por favor, preciso ir presa, o senhor precisa me prender"...erguia as mãos para ser algemada. Alertados pelos gritos, muitos militares saíram para ver o que acontecia. Eu estava apavorada e ela não largava minha mão! Atirei-me ao chão e gritando consegui fugir, porque minha mãe ainda segurava meu irmão ao colo, mas uma senhora agarrou-me e impediu que eu fugisse. Por uma razão humana nos ajudava. Em segundos, enquanto ela berrava, muita gente se aproximou. Eu não queria ir presa, necessitava sair dali... Sentia frio, não tive tempo de me arrumar, pois quando saímos de casa a mãe estava com pressa... Ela nunca havia nos deixado mal vestidos...
          Aquela senhora que me segurava pelo braço, acalmou a mãe e nos levou de ônibus até a antiga sede da saúde publica.
          Estávamos em uma sala, com azulejos brancos, o meu irmão Zeca, mal sabia andar e ele estava sem fraldas e sem calças. Estava nu e fazia muito frio. Uma senhora de avental branco me perguntou se eu conhecia dona Nídia, e respondi que era minha madrinha. A mãe estava falando para elas que bordava para famílias muito ricas e conhecia pessoas importantes, minha madrinha era uma delas, irmã de um político de São Paulo.Precisavam acreditar, antes de telefonarem.
          Tempos depois uma senhora muito bem vestida, chegou e foi abraçar a mãe. Lembro dela dizendo "Filomena, oque te aconteceu?" . Eu esperava minha madrinha, não conhecia aquela mulher. Era uma das freguesas da mãe. Ela nos levou para casa no carro bonito. Desse dia a última coisa que lembro foi quando chegamos vi meu pai, minha avó e a Ângela na janela. Eu corri para meu quarto, e deitei em minha cama. 
          Depois passei a visitar a mãe no hospício.