começo das lembranças. muito cedo
Curitiba, um dia qualquer no inverno...1958
... As trevas esperavam o sol na sombra da noite,
eu sentia sono, queria dormir mais
........
Minha mãe acordou-me com um sussurro e pediu para aprontar-me rápido, enquanto tentava acordar minha irmã Ângela, que virou-se para outro lado e não quis levantar. Segurou minha mão e com meu irmão Zeca de um ano ao colo, enrolado em um cobertor saímos na noite, em silêncio como fugitivos.
Pensei que iriamos para o ponto de ônibus como sempre, mas ela ficou escondida algumas quadras além de nossa casa. Não lembro onde nos escondemos, ninguém poderia nos ver.
... Vi o dia nascer ...
Lembro de minha mãe correndo para diante do carro de um vizinho, quando este saia da garagem, abriu a porta e entramos furtivamente. O homem depois do susto, ficou muito brabo com ela e mandou que saísse, a chamava de louca e ela chorava muito, implorava que a levasse para longe dali. Fiquei com medo, queria voltar para casa, mas ela pedia àquele homem, "ajude-me, o senhor é o meu português, o senhor é o meu salvador".
Contra a vontade ele concordou em levar-nos. Ela ficou a falar o tempo todo sem parar e o homem estava nervoso. O que lembro foi ele dizer. "A senhora fica aqui agora, vai ter que descer de meu carro. Preciso ir trabalhar".
Andamos até um quartel, quando ela se jogou diante de uma guarita onde um soldado montava guarda e a gritar pedia "Me prenda por favor, preciso ir presa, o senhor precisa me prender"...erguia as mãos para ser algemada. Alertados pelos gritos, muitos militares saíram para ver o que acontecia. Eu estava apavorada e ela não largava minha mão! Atirei-me ao chão e gritando consegui fugir, porque minha mãe ainda segurava meu irmão ao colo, mas uma senhora agarrou-me e impediu que eu fugisse. Por uma razão humana nos ajudava. Em segundos, enquanto ela berrava, muita gente se aproximou. Eu não queria ir presa, necessitava sair dali... Sentia frio, não tive tempo de me arrumar, pois quando saímos de casa a mãe estava com pressa... Ela nunca havia nos deixado mal vestidos...
Aquela senhora que me segurava pelo braço, acalmou a mãe e nos levou de ônibus até a antiga sede da saúde publica.
Estávamos em uma sala, com azulejos brancos, o meu irmão Zeca, mal sabia andar e ele estava sem fraldas e sem calças. Estava nu e fazia muito frio. Uma senhora de avental branco me perguntou se eu conhecia dona Nídia, e respondi que era minha madrinha. A mãe estava falando para elas que bordava para famílias muito ricas e conhecia pessoas importantes, minha madrinha era uma delas, irmã de um político de São Paulo.Precisavam acreditar, antes de telefonarem.
Tempos depois uma senhora muito bem vestida, chegou e foi abraçar a mãe. Lembro dela dizendo "Filomena, oque te aconteceu?" . Eu esperava minha madrinha, não conhecia aquela mulher. Era uma das freguesas da mãe. Ela nos levou para casa no carro bonito. Desse dia a última coisa que lembro foi quando chegamos vi meu pai, minha avó e a Ângela na janela. Eu corri para meu quarto, e deitei em minha cama.
Depois passei a visitar a mãe no hospício.
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