sábado, 30 de novembro de 2024

mendigos

Receba a o mendigo que bate à tua porta

às vezes ele só deseja  te oferecer nêsperas doces.


Bauru

era um domingo nublado.

O Zé perdera o emprego na sexta feira. Precisávamos nos recompor do imprevisto, colocar nossas ideias no lugar certo, tomar decisões, 

eu estava sem rumo

o mendigo bateu no portão, era meio dia e tantos, não recordo com exatidão; perguntou se eu podia lhe dar um prato de comida;

respondi um tanto ríspida como é meu feitio, quando as coisas não dão certo 

__não tenho  

__está me negando um prato de comida? respondeu

__não fiz o almoço 

__esta hora e ainda não fez almoço? contestou

__Levantei tarde, tomei café agora e hoje é domingo

__a senhora está mentindo para mim.  Está me negando alimento

__Por acaso o senhor está sentindo cheiro 

__Comida ruim não cheira mesmo.


fiquei furiosa, não estava lhe negando nada.


__se o senhor quiser o que tomei no café da manhã tudo bem

__O que a senhora tomou. perguntou

__ Uma caneca de café com leite, pão caseiro com queijo e presunto, uma fatia de mamão.

__Pode ser . respondeu


então eu lhe servi, café com leite, quatro fatias de pão com queijo e presunto, e meio mamão papaia, em um prato de alumínio marmita.

ele sentou na calçada em frente a casa da Lúcia minha vizinha, que levou uma marmita pronta. Senhor Minori comprara duas e só comeram uma.O mendigo comeu a marmita, guardou os sanduiches e foi se despedir de mim, agradeceu a hospitalidade.

fiquei pensativa...

eu discuti com um mendigo e fiquei com cheiro de nêsperas na cozinha.

maria ermelinda


é Gabriel 

não lembro em minha juventude um dia sequer sem ver o Gabrié; era assim conhecido.

trapilho roto, com sapatos muitas vezes maiores que seus pés, e as mãos sempre enfaixadas. 

Não comia em qualquer casa, tampouco aceitava de qualquer pessoa água ou comida. certa vez o gaúcho barbeiro comprou dois sanduiches e ofereceu um para ele, que respondeu de pronto, 

__Dê para os pobres

andava o dia todo pelas redondezas, do Capão Raso até a igreja do Portão, ia e voltava.

almoçava na casa de minha mãe, ou dona Catarina, ou dona Ana, dona Vilma, ou Sebastiana ou dona Diva do supermercado. Ou tomava café na casa de uma ou outra. Um fato era certo, todas nós tínhamos seu prato, garfo e colher e a caneca para o café e de preferencia com pão e manteiga e uma fatia de bolo.

até meu sobrinho Érico ainda bebe, já apontava no armário a direção dos objetos quando o via no portão.

Minha mãe tinha um remédio Milagroso do Padre, que curava tudo, com um teor alcoólico de 90 graus ou mais. Um dia eu estava com dor de cabeça e ela me fez tomar uma taça daquela beberagem, fiquei bêbada, mal conseguia andar. Com essa poção milagrosa colocava sobre as mãos do Gabrié, e cobria com os panos de sua afeição.

um dia me coube atende-lo no portão, e confesso que não tinha a paciência de minha mãe, fiz com que ele mesmo tirasse aqueles trapos da mão e despejei o precioso liquido. suas feridas já estavam amenizadas e lhe disse para não colocar os panos.

__tem de colocar dona, "Se não eu morro". Sim, tinha muito medo de morrer.

Nesse dia me pediu um sapato que o dele esta rasgado na frente. Perguntei que numero calçava e me respondeu

__qualquer um

eu tinha um par de sapatos de que o Zé não usava e disse-me de serviu. Calçou um sapato, deixou o rasgado no chão e estava indo embora. Perguntei porque não pegou o outro pé e ele me respondeu tranquilamente

__esse aqui está bom ainda.

joguei um sapato rasgado e o outro no lixo.

era assim mesmo, um sapato, ou uma camisa, uma calça com um cordão amarrado.

uma manhã estava fazendo o almoço, ouvi uma canção no pátio da casa de minha mãe, fiquei intrigada, uma voz melodiosa, bonita, no ritmo, acompanhada da dança, um xote talvez, não lembro; era o Gabrié quase em transe, em outro mundo, fora do tempo, de um lado a outro. Estaria sonhando, as lembranças do passado sempre voltam. 

Ele não conversava, eram poucas palavras objetivas, um mundo onde ninguém penetrava além dele. trabalhou na olaria do avô de meu cunhado, e quando este morreu, Gabrié passou a caminhar, ir e voltar de uma igreja a outra, passando pelo Novo Mundo.

As vezes passava de banho tomado e cabelo cortado, pela insistência do Barbeiro no Posto de Gasolina, ou bebia uma dose no bar do Miguel, com um pastel ou coxinha.

nunca perguntamos ou pensamos onde dormia.

desapareceu, sumiu...

durante muitos anos sempre foi visto por todos e agora perguntavam

onde estará?  Aconteceu algo com certeza.

Dias depois a noticia, perguntaram na delegacia do bairro.

Gabrié fora assassinado por alguns mendigos que queriam dormir em seu reduto, ele não deixaria isso acontecer. Pagou com a vida defendendo o pouco que tinha.

eu só penso

ele tinha medo de morrer e enfaixava as mãos com trapos

os mendigos que fizeram isso com ele dormem na cadeia.

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