Quando a morte aprendeu esperar o tempo
E ela que passara a vida toda conquistando seu chão, encontra-se agora presa da moira indecisa, se corta ou não o fio da vida, enquanto a outra tece sem compaixão, as tramas inexatas de sua existência. Ela segura firme a mão certa do golpe final, pede o tempo, alarga a mente buscando suas esperanças escondidas em algum canto da lembrança.
Em outra época teria sucumbido ao enfarto, não agüentaria uma parada cardíaca por doze minutos. A tecnologia e a medicina avançada souberam parar a morte, deixá-la confusa quanto ao seu oficio, a hora certa de viver. Será que viera antes? Afinal a Moira ainda tece seu destino, com visão turva e mãos tremulas sem saber se deixa outra cortar esse fio. Parece que o lençol ainda não está terminado, ainda faltam bordar alguns garanitos, fechar o caseado, para se cobrir definitivamente o corpo que deveria estar sem vida.
O que é isto afinal? Não está morta, mas também não esta totalmente viva.
Agora irá para a casa, não a sua onde passou toda a eternidade só, esperando a esperança de um carinho, um afeto, além da cobrança dos deveres. Cuidou e não foi bem cuidada. Sempre se mostrou firme como um rochedo, as mãos de ferro a segurar seus dias. Ninguém percebeu sua fragilidade, seu cansaço. Precisou parar o coração para atentarmos o que lhe faltava.
O que me entristeci em tudo isto é saber que minha mãe trabalhou tanto para ter sua casa, agora não poderá retornar ao seu de direito, terá de conviver com os filhos para que possam cuidar com dignidade e amor de seu corpo parado.
Meu Deus! Não pode mexer os braços, as pernas, esperar que a mente lhe leve pelas sendas obscuras das células que não foram afetadas.
Soube hoje que está conseguindo um pouco de movimento
Força mãe... Acredite em milagres!
Deus escreve nosso destino!
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