domingo, 1 de maio de 2011

Linda ontem

 

Como me lembro, de minha avó ajoelhada aos pés da mãe de dona Ana Mikowski, para entregar sua alma a Deus,
A oração da boa morte
Preocupação com a sua Própria morte no hospital Erasto Gaetner, e de como os franciscanos da ordem terceira, rezando por ela para entregar sua alma a Deus.
A Rosalina estava chorando na casa de minha avó pedindo a ela que fosse rezar aos pés de sua avó, que estava morrendo.

Com muita paciência, a senhora dona Matilde, buscou seus missais, e foi para a casa da família Mikowski, para confiar à alma da velha senhora ao todo poderoso.
    Eu e meus irmãos passamos a tarde brincando na rua, (Naquele tempo a rua era tranqüila, não passavam carros e o povo muito mais educado), mas parava de pular corda para entrar na casa da vizinha e sondar o que estava acontecendo, curiosidade natural de criança, que não compreendia nada da morte, nem o sentido que aquele era o momento, em que o ser humano está mais só em toda sua vida.
    Esta solidão, minha avó completava com suas orações, ajoelhada aos pés da cama da moribunda, pedia a Deus sua salvação na vida eterna, esperando junto a Ele seus descendentes que um dia a acompanhariam naquela jornada, aonde todos vamos, apenas a avó de dona Rosalina estava indo na frente, encontrar os seus que já se foram.
    Minha avó rezava a oração da Boa Morte, a Ladainha da Entrega, e em momento algum pensou em levantar dali, apoiada na sua fé, ouvindo o choro e a lamuria dos familiares dessa senhora, que fraca na sua doença tentava balbuciar as palavras da oração com fé, sabia que sua hora havia chegado.
    Eu não estava gostando daquele ambiente, saia para brincar novamente, mas não conseguia me concentrar na brincadeira, sempre entrava na casa, para sondar aquilo que estava acontecendo ali. Minha mãe me pedia silêncio, pois o momento era solene, ali estava sendo realizado um ritual antigo, por alguém que conhecia e acreditava naquilo que estava fazendo.
    Várias vezes eu brinquei e entrei na casa, fiquei velando junto a eles, mas a tristeza era muita. Porque sentimos tanta amargura quando perdemos o ente amado? Se acreditarmos que vamos para melhor, no Jardim do Édem, não deveríamos chorar tanto.
    Minha avó rezou a manhã toda, não aceitou comida e água, enquanto fazia suas orações junto à velha senhora, que ao entardecer daquele dia, expiou.
     Apoiada por Rosalina, sem forças para levantar, minha avó chorou.
    Naquela noite, enquanto rezava seu terço, sentada, (raras vezes rezou assim, mas seus joelhos deviam estar doendo demais), Dona Matilde sabia que tinha feito a boa ação Franciscana, e que seu santo estava orgulhoso dela.
Não existe a dor para quem tem fé.

 

        Texto da Linda/ 15/04/2011.

 

Guaratuba, 29 de abril de 2011.

 

    Fui morar na Vila Cubas, aos 7 anos, porque meu pai perdeu o emprego na fabrica de erva mate, Leão Junior, onde trabalhou desde o primeiro dia que chegou a Curitiba, exatamente sete anos antes, e vivi nela durante toda a minha vida, até vir para Guaratuba. Apenas quatro anos de licença em Bauru.
    Nossa casa era de madeira, com cinco degraus mais ou menos, feitos de pilares altos, e dava para entrarmos embaixo dela, onde eu e meus irmãos costumávamos brincar. Nunca tive claustrofobia quando criança não sentia medo de ficar embaixo da casa. Porém, certa vez sonhei que estava brincando lá e, de repente, o vão entre a casa e a liberdade ficou muito estreito e eu não conseguiria sair. Fiquei desesperada com a situação em que me encontrava, olhando por todos os lados, estava presa ali. Comecei então a gritar por socorro, chamando minha mãe, mas a voz saia muito baixinha, quase um sussurro. Dessa forma minha mãe nunca me ouviria, e cada vez tentava gritar mais alto, mas a voz estava sufocada, e eu não conseguia emitir som algum. Acordei com um safanão de alguém , não lembro se minha mãe, ou meu pai ou quem sabe minha avó, porque eu gritava em alto e bom som chamando por minha mãe dentro do quarto, apesar, de no sonho a voz não sair.

 


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